quinta-feira, 11 de maio de 2017

Herculano Pires


Herculano Pires, um nome a ser sempre lembrado no meio espírita, grande e profundo estudioso da Doutrina, combateu de forma veemente as fraudes e demais embustes levados a feitos por aqueles que se diziam espíritas. De caráter irrepreensível, legou-nos alertas memoráveis que infelizmente vem sendo deixados de lado pelos detratores que tanto combateu no meio espírita. Adepto de um Espiritismo que respeitasse a Codificação foi um dos maiores estudiosos de Kardec. Sempre vale a pena relembrar os seus alertas, visto que, a deturpação do Espiritismo não é um fato acontecido apenas em seu tempo. Um grande defensor da causa espírita e no dizer de Deolindo Amorim, “Temos nele, sem exagero, um dos mais positivos padrões morais e intelectuais do movimento espírita brasileiro (...)”.

No texto abaixo, retirado de uma de suas obras, a explicação lúcida sobre o trabalho na casa espírita que merece ser lido, relido e refletido principalmente por aqueles que se julgam trabalhadores da seara espírita.

O CENTRO E A COMUNIDADE 


“O centro Espírita não surge arbitrariamente, nem por determinação de alguma instituição superior do movimento doutrinário. Ele é sempre o produto espontâneo de uma comunidade espírita que se formou num bairro, numa vila ou numa cidade. Essa comunidade é sempre extremamente heterogênea, formada por espíritas e simpatizantes da Doutrina, membros de correntes espiritualistas diversas e de religiosos indecisos ou insatisfeitos com as seitas que se filiaram ou que pertencem por tradição familial. Há, porém, um denominador comum para essa mistura: o interesse pelo Espiritismo. Esse interesse, por sua vez, decorre de vários motivos, entre os quais predominam as ocorrências de fatos mediúnicos nas famílias, geralmente em formas de perturbações psíquicas. Dessa maneira, os fundadores do Centro e seus auxiliares enfrentam desde o início muitos problemas e dificuldades. Ë necessária a presença de uma pessoa que tenha conhecimento doutrinários e experiência da prática mediúnica, para que o Centro não fracasse nos seus primeiros meses de existência. Não havendo no grupo fundador uma pessoa nessas condições, é necessário recorrer-se a pessoas de Centro das proximidades, que sempre atendem de boa vontade. O Espiritismo não é proselitista, não entra na disputa sectária de adeptos das religiões, mas devem os espíritas, necessariamente, interessar-se pelos que se interessam pela Doutrina. Esclarecer e orientar sempre é dever espírita.
O conhecimento dos problemas mediúnicos exige estudo incessante das obras básicas de Allan Kardec, particularmente estudos permanentes do Livro dos Médiuns e leitura metódica da Revista Espírita de Kardec, em que os leitores encontram, além de numerosas instruções, relatos de fatos e observações de pesquisas que muito ajudam no trato de problemas atuais. Sem estudo constante da Doutrina não se faz Espiritismo, cria-se apenas uma rotina de trabalhos práticos que dão a ilusão de eficiência. Estudo e pesquisa, observação constante dos fatos, análise das mensagens recebidas, observação dos médiuns, exigência de educação mediúnica, com advertências constantes para que os médiuns aprendam a se controlarem, não se deixando levar pelos impulsos recebidos das entidades comunicantes – esse é o preço de trabalhos mediúnicos eficazes. Mas, acima de tudo e antes de tudo: humildade. Porque Espiritismo sem humildade é água poluída, cheia dos germes da pretensão, da vaidade, do orgulho que atraem os espíritos inferiores. Um presidente de Centro não é Presidente da República e um doutrinador não é um sábio. Pelo contrário, são criaturas necessitadas, que estão aprendendo a arte difícil de servir e não a de baixar decretos, dar ordens e humilhar os outros em públicos. Sem humildade, que gera e sustenta o amor ao próximo, nem o estudo pode dar frutos. Por outro lado, sem estudo os frutos da humildade não produzem amor, mas fingimento, hipocrisia de maneira e fala melosa, de voz impostada para imitar anjos.
O Espiritismo é natural e exige naturalidade dos que pretende vivê-lo no dia-a-dia, em relação natural e simples com o próximo. Os maneirismos, as modulações artificiais da voz, os excessos de gentileza mundana e tudo quanto representa artifício de refinamento social, deformando a natureza humana a pretexto de aprimorá-la, não encontraram aceitação nos meios verdadeiramente espíritas. Algumas instituições começaram a adotar, há alguns anos, treinamento de voz e de gesticulação para jovens espíritas. Alguns Centros aderiram e essas encenações, estimulados por mensagens espirituais que aconselham brandura e bondade no trato com a semelhantes. Espíritos ainda apegados aos formalismos religiosos do passado chegaram a recomendar modismos nesse sentido. Nem Jesus nem Kardec se utilizaram nem recomendaram essas imitações da hipocrisia farisaica. O que o Espiritismo objetiva é a transformação interior das criaturas, para que se tornam mais esclarecidas e com isso, dotadas de mente mais arejada e coração mais puro. No Centro Espírita devemos manter a mais plena naturalidade de comportamento, dentro das normas naturais do respeito humano. As modificações exteriores, precisamente por serem forçadas e portanto mentirosas, não exercem nenhuma influência em nosso interior. O contrário é que vale: quem exercitar-se na prática das boas ações, da verdade e da sinceridade, modificará sem querer e perceber o seu comportamento, sem nenhum dos sintomas desagradáveis de fingimento e hipocrisia. O Espiritismo, que nos foi legado pelo Cristo através do Espírito da Verdade, não pode adotar os expedientes da mentira. O Centro Espírita tem mais com que se preocupar, do que com essas repetições de um longo passado de traições e perfídia, em que sacerdotes treinados nos gestos e expressões de piedade, mandavam queimar vivos os seus semelhantes em nome do Cristo.
A facilidade com que a maioria das pessoas aceita livros de evidente mistificação, como os Evangelhos de Roustaing, as obras de Ramatis, e tantas outras, eivadas de contradições e de passagens ridículas, destinadas especialmente a ridicularizar a Doutrina, provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical. No Espiritismo não objetivamos o domínio do mundo por nenhuma forma igrejeira, através de engodos demagógicos, mas unicamente o esclarecimento das criaturas para que a Terra se eleve em suas condições morais e espirituais. O sistema igrejeiro de adulação aos médiuns, no desejo de obter as suas graças, é outra raiz amarga que nos vem do passado religioso, mas que não deve ser cultivado no Centro Espírita. O médium adulado, louvado a todo instante, cercado de admiradores como um cantor popular, artista de novela de tv ou jogador de futebol, acaba perdendo a sua naturalidade, recorrendo a expedientes ridículos para conservar o seu prestígio e geralmente chega em falência ao fim da sua missão. Os exemplos são muitos e dolorosos, no mundo inteiro. Essa situação constrangedora coloca o Espiritismo em pé de igualdade com as religiões formalista, deturpando-lhe a imagem real. Médiuns, expositores e escritores espíritas não são luminares nem santos, mas criaturas falíveis que podem também cair a qualquer instante de seus falsos pedestais. Devemos respeitar naturalmente a essas criaturas como nossos irmãos dedicados à Doutrina ( quando não a traem em favor de suas opiniões pessoais ) sim devemos respeita-los e louvar os seus esforços, mas sem cairmos no exagero de idolatrias beatas.
O conceito de mediunidade que vigora entre nós, na maioria esmagadora dos Centros, é espantosamente ambivalente e portanto contraditória. Afirma-se ao mesmo tempo que a mediunidade é uma graça e uma provação, , que os médiuns são espíritos grandemente faltosos, não obstante adorados como enviados de Deus. Os que estudam seriamente a Doutrina logo percebem a falsidade desse conceito. A mediunidade é uma faculdade natural da espécie humana, como todas as demais faculdades. Toda criatura humana é naturalmente dotada de mediunidade. Kardec observou a existência da mediunidade generalizada. Mas a mediunidade manifesta-se nas criaturas em diferentes graus de desenvolvimento. Todos somos médiuns, todos possuímos o que hoje se chama de percepção extrassensorial, segundo a terminologia parapsicológica. Ë natural que os que revelam graus mais intensos de mediunidade, prestando-se por isso a trabalhos mediúnicos, sejam especificamente designados como médiuns, da mesma maneira por que todos possuímos inteligência, mas só os que possuem em grau excepcional são designados como “uma inteligência “,merecendo os louvores e o respeito dos que não atingiram esse grau.
Os médiuns são os elementos principais da ligação do Centro Espírita com a comunidade social do bairro ou da cidade. São mesmo com os elos genésicos dessa ligação. Suas faculdades mediúnicas exercem atração natural sobre a comunidade e os serviços que prestam no Centro ou nos atendimentos eventuais, fora dele, ampliam a simpatia popular pelo Centro. Essa função do médium é natural e inconsciente. Partes integrantes da comunidade, vivendo no meio do povo como povo, sem nenhum título especial que os separe da massa, quanto mais simples e despretensiosos eles forem, mais eficientes serão na sua função espontânea de elos. Quando o médium é pedante, pretensiosos, contador de vantagens, sabereta, arrogante, essas antivirtudes o transformam em elemento negativo na dinâmica social. Por isso o médium deve compreender bem a sua condição de criatura normal integrada no povo e não de elemento excepcional , dotado de poderes divinos ou convencido de possuí-los. Os dirigentes do Centro podem reforçar ou enfraquecer as ligações deste com a comunidade. Basta um presidente arrogante, sempre disposto a criticar e humilhar os adeptos de seitas existentes na comunidade, para que os elos estabelecidos pelos médiuns sejam rompidos. Atacar religiões e práticas religiosas dos outros é o meio mais fácil de afastalos do Centro. Essa crítica pode e deve ser feita em termos de comparação histórica, nas reuniões especiais de estudo doutrinário, com ampla liberdade de discussão a respeito, reconhecendo-se a existência dos fatores temporais que no passado, foram benéficos à solução espiritual dos homens, tornando-se mais tarde prejudiciais ao esclarecimento espiritual do povo. Mesmo assim, é conveniente evitar exageros, para que essas debates elucidativos não se transformem em pedra de tropeço para as pessoas simples e de boa-fé. Em todas as atividades do Centro deve prevalecer o princípio de amor e respeito ao próximo, não para atrair simpatias, mas, para não causar aborrecimento e prevenções nas pessoas que desejam adquirir conhecimentos renovadores.
O Centro Espírita não é um instrumento de conversões, mas também não pode ser um instrumento de dissensões. O Espiritismo não quer impor-se aos outros, mas ajudar e esclarecer os que o procuram. Se existirem na comunidade elementos, desses que fazem de cada espírita um diabo disfarçado em gente, um instrumento do diabo para enganar as almas, o centro não deve aceitar as sua provocações negativas. Essas pessoas, geralmente exaltadas e insolentes, são vítimas de seu próprio temperamento e também das deformações sectárias do Cristianismo e das épocas de fanatismo, maldições, excomunhões e perseguições, que embora distantes, ainda permanecem no inconsciente de muitas criaturas, forçando-as a atitudes anticristãs e ridículas. Hoje os tempos são outros e o Centro Espírita pode responder a essas agressões – como fazia Kardec – não com revides violentos, mas com esclarecimento serenos e fraternos.
Mas temos de vigiar a nossa tolerância, para não cairmos no charco da hipocrisia, no fingimento de uma bondade que não possuímos. A regra de comportamento espírita deve ser a de Jesus: “mansos como as pombas, prudentes como as serpentes”. O Centro Espírita guarda em seu seio as colheitas da Verdade e precisa defendê-las, mantê-las puras e vivas, para com elas saciar a fome do mundo. Jesus imolou-se por essa colheita de sua própria semeadura, mas enquanto foi necessário defender a seara manteve atitudes viris contra os pregoeiros da mentira e da ilusão. Se deixarmos o Centro abandonado à fúria dos fariseus, eles o destruirão sem nenhum escrúpulo, sob rajadas de calúnias e perfídias. O Centro Espírita é a pequena e humilde fortaleza da Verdade na Terra da Mentira. Tem a obrigação de lutar para que a Verdade prevaleça em toda a sua dignidade.
A incapacidade humana para assimilar os ensinos de Jesus levou o Cristianismo a dois extremos que somente Kardec soube rejeitar, estabelecendo o equilíbrio na balança do bom-senso. Os espíritas não podem oscilar entre o extremo da arrogância criminosa, geradora de guerras e destruições, e o extremo da covardia disfarçada em humildade, que sempre cala e tudo cede aos insolentes agressores. Há um limite para a tolerância, traçado por Jesus em torno da mulher inerme que os hipócritas queriam apedrejar.
Propagou-se no meio espírita, através de mensagens mediúnicas emotivas, tendendo a um masoquismo de cilícios e autopunições, a estranha idéia de que a virilidade só pertence aos cultores da violência. Voltamos assim ao sistema igrejeiro dos rebanhos de ovelhinhas inocentes devoradas por lobos famintos sem qualquer possibilidade de defesa. Entregues a essa idéia derrotista, o meio espírita abastardou-se a ponto de até mesmo recusar-se a defender a Doutrina aviltada pela ignorância travestida de bondade e doçura. A falsa imagem do “ Meigo Nazareno” , que a tudo cedia – comprometendo a sua própria missão – apagou na mente de adeptos desprevenidos a imagem viril de Jesus empunhando o chicote no Templo contra vendilhões. Já é tempo de compreendermos que estamos na Terra para conquistar e defender a dignidade humana, sem nos curvarmos atemorizados ante as investidas da impostura. Quem não defende a Verdade traída e conspurcada pela mentira não é digno dela. E quem não é digno da Verdade entrega-se à mentira. Jesus enfrentou os mentirosos atrevidos, num dos pátios do Templo como nos revela o Evangelho de João, dizendo-lhes face a face : “Vós sois do Diabo e vosso pai foi ladrão e assassino desde o princípio “. Duras palavras, a que os mentirosos quiseram responder com pedradas. Mas Jesus desapareceu, ensinando-lhes que as pedras da mentira não podem atingir o alvo da Verdade. Os espíritas seráficos, candidatos apressados a uma angelitude que ainda estamos longe de alcançar na Terra, não compreendem o sentido desse trecho evangélico e são capazes de expungi-lo do Evangelho em nome de uma santidade covarde que Jesus jamais ensinou. A figura evangélica de Jesus é recortada em traços fortes e viris. Sua coragem de encarnar-se na Terra para enfrentar os poderes do mundo como homem, sua audácia na condenação dos poderosos do tempo, sem recorrer a sofismas, sua bravura ao entregar-se para o sacrifício da cruz para ensinar aos homens a glória de morrer pela Verdade – são lições que devemos aprender, se quisermos nos fazer dignos de segui-lo.
O Centro Espírita se entranha naturalmente na comunidade, é parte dela, um órgão ativo e operante da estrutura social. Por mais humilde e simples que seja, é uma fonte de consolações, um posto de orientação para os que se aturdem e se transviam, mãos amigas estendidas na bênção do passe, canal sempre aberto da caridade e do amor. Mas é também a trincheira serena e vigilante da Verdade, o tribunal que não condena, mas ajuda e absorve através do esclarecimento espiritual. Os que buscam a paz e a esperança encontram nele a compreensão que pacifica o espírito e a razão que justifica a fé nas provas da Verdade. Por tudo isso a sua posição na comunidade é a de um coração comum aberto a todos e de uma consciência lúcida a orientar a todos, na permanente doação dos ensinos e socorros gratuitos.
A responsabilidade dos dirigentes e colaboradores dessa instituição cristã, humilde e simples é, entretanto, grandiosa e complexa. A voz dos espíritos soa dia-e-noite no silêncio dessa concha acústica da Verdade, no murmúrio secreto das fontes da intuição, advertindo aos que sofrem e aos que gozam quanto a precariedade das ilusões terrenas e a eternidade das leis da vida no Universo infinito. Quanto mais simples é o Centro em bens materiais, maior é a sua riqueza em bens espirituais”.

PIRES, Herculano. O Centro Espírita. São Paulo: Paideia, 1980, p. 25-34.

         

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Espiritismo: o futuro das religiões


As religiões em si pregam a existência de uma incompatibilidade com o Espiritismo. Para elas, não há possibilidade de se proferir uma fé e acreditar na existência de espíritos, na reencarnação ou mesmo na imortalidade da alma. Expressam que duas concepções não podem ocupar o mesmo lugar na mente do fiel, e nas alegações promovem o Espiritismo a um sistema anticristão.
Seria realmente impossível professar duas concepções caso fosse, o Espiritismo, uma religião institucionalizada, com ritos e dogmas, um cortejo de hierarquias e cerimônias conforme explica Kardec em artigo da Revista Espírita (1868, p. 491).
O Espiritismo é uma doutrina de tríplice aspecto: ciência experimental, doutrina filosófica e moral. Como ciência não se ocupa de dogmas e como filosofia possui consequências morais e não religiosas. Proclama a liberdade de consciência como um direito natural, combate a fé cega que leva o homem a perder o crivo da razão e do bom senso e não impõe a quem quer que seja que para acreditar em seus princípios tenha que se despir de suas crenças. Para Kardec, a comunhão de pensamentos, em torno de crenças, seria fundamental para legar à humanidade ações e efeitos evolutivos, a partir da harmonia e da emanação de fluidos benéficos por ser a Doutrina Espírita universalista e por isso mesmo congregar todos os sentimentos religiosos.
Kardec (2008, p. 298),alerta para a implantação da fraternidade e diz que esta é a base para uma nova ordem, tendo como pilar a fé inabalável, não focada em dogmas, mas em princípios relevantes: Deus, alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a perpetuidade das relações entre os seres quando os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos. De acordo com o entendimento, percebe-se que a incompatibilidade professada entre os credos parte essencialmente da ignorância dos homens sobre a natureza de Deus, que os leva a reduzir a existência a uma luta entre deuses de diversas religiões. Quando, portanto houver o entendimento de que os rótulos são puramente fantasia para a perpetuação do maniqueísmo, haverá a compreensão de que temos um único Pai e um único Mestre.
Léon Denis, no cap. XI de No Invisível (2008), ao ratificar a universalidade da Doutrina Espírita, esclarece que aos poucos as religiões irão congregar os conceitos fundamentais do Espiritismo e ficarão tão semelhantes que não haverá como diferenciá-las umas das outras, pouco importando qual se seguirá, pois haverá uma relação equilibrada entre elas, em seus conceitos de vida e espiritualidade e a união de pensamentos e ações pelo bem universal será uma realidade incontestável, conforme pensava Kardec.
A união de pensamentos e a fraternidade, base para a fé inabalável, começa a se tornar fato real. No dia 24 de abril de 2016, o companheiro do Observatório de Pedagogia Espírita, Orlando Moura, ordenou-se diácono da Igreja Católica Livre, uma variante da Igreja Romana, porém sem laços com esta última, ainda arraigada a ritos e dogmas, mas livre da imposição do celibato, do uso da cruz e das imagens e comungando dos princípios da Doutrina Espírita.
Essa ordenação foi um marco para o movimento espírita da cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, visto que a cerimônia foi realizada em uma casa espírita, pelo bispo e demais representantes da Igreja Livre e com a presença de espíritas, católicos, evangélicos e adeptos da Igreja Messiânica. Eis o Espiritismo como o futuro das religiões.

REFERÊNCIAS

DENIS, Léon. No invisível (1911). Disponível em: http://bit.ly/noinvisivel-leondenis. Acesso abril 2016. pp. 92-98
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 2. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2010.
KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: CELD, 2008.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. 11º ano, 1868, p. 491.

  





sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Promessas de fim de ano, educação moral e progresso do espírito



Como todo final de ano, é hora das promessas para alteração da vida no ano novo. Expectativas de mudança de emprego ou de conseguir um, de casa nova, de relacionamento para os solteiros, de melhoria das relações para os compromissados, parar de beber, parar de fumar, curar-se de doenças, de malhar mais e deixar o corpo em forma, de emagrecer, economizar...
Enfim, todo ano é a mesma coisa... Uma extensa lista de promessas a serem cumpridas.  As intenções são boas, mas, ao desenrolar dos dias, caem no esquecimento. Os fatores são diversos, desde a preguiça para engendrar a transformação à falta de tempo para promover as mudanças prometidas.
Percebe-se, entretanto, que todas essas mudanças tem ligação com outra mais profunda e esquecida, não só no final do ano como em todos os dias de qualquer ano, a educação moral, que logrará a tão falada reforma íntima que, quando levada a efeito fará com que, não precisemos mais de promessas de fim de ano, pois ela será natural, sem dores, praticamente imperceptível.
O amai-vos e instrui-vos é conhecido de todos os que lidam no movimento espírita, porém, bem poucos entendem que o seu real significado está ligado ao entendimento de que para evoluir é necessário estar imbuído de estudos sobre os procedimentos essenciais e ter consciência sobre a necessidade de evolução.
A Doutrina Espírita tem entre as suas atribuições ajudar o homem a realizar a sua transformação moral, mas, essa atitude passa por compreensões maiores do que possamos supor. A primeira delas, é que carregamos certos vícios dos quais podemos não nos orgulhar, mas temos grandes dificuldades em extingui-los por estes já terem percorrido uma boa parte da vida alimentando nosso ego com mil e uma justificativas para mantê-los.
Sendo um dos temas mais debatidos no meio espírita, a reforma moral é também das mais complexas a ser colocada em exercício efetivo na vida até mesmo dos espíritas, que engordam as fileiras de promessas de final de ano, esquecendo-se que para alcançar transformações mais profundas, na vida material, é preciso consertar as estruturas que não se vê, as subjetivas, representadas pelo senso moral.
Mas, o que é moral, qual a necessidade dessa reforma?
A questão moral passa essencialmente pela ética que é o conjunto de valores, hábitos e costumes de uma cultura ou sociedade, interpretada pelos romanos como moral. A Ética é parte da Filosofia, seus estudos dizem respeito aos valores que o ser humano emprega em sua conduta para que possa alcançar a felicidade. A Ética está ligada à distinção entre o bem e o mal; entre o que é e o que não é proibido, entre o lícito e o ilícito.
Nesse sentido a educação moral vem criar condições para que saibamos como agir, de modo consciente e racional, para uma mudança comportamental quando despertamos para a necessidade de eliminar os pontos negativos que ainda reinam no espírito.
Reforma moral é um processo ininterrupto na busca pelo conhecimento de si mesmo e consequentemente de renovação de estruturas antigas, substituídas por novos paradigmas que levem o espírito a atingir o tão desejado progresso e equilíbrio.
Nesse esquadrinhamento do íntimo pela superação dos vícios e distúrbios a vivência evangélica é fator primordial que ajudará a eliminar os males do passado e a evitar outros no presente e no futuro.
Assim como as promessas de final de ano tem como propósito um estado de felicidade, este também é o objetivo da promoção da reforma íntima, que, entretanto, tem um alcance muito maior que meramente o âmbito material, apesar de atingir também este. A reforma moral tem seu raio de ação nas profundezas do espírito levando-o à consciencialização de que ele é o artífice de seu destino a partir de sua conduta.
Reformar-se moralmente envolve promessas de transformações que nunca fazemos que é mudar interiormente e que requer estarmos cientes das Leis Divinas, e por esta ser uma realidade ainda distante para muitos, sequer conseguimos cumprir simples promessas de fim de ano. Quando tivermos maturidade suficiente para entender que o alcance de uma vida material de realizações requer mudanças de atitudes mentais e espirituais, seremos mais felizes.
A reforma íntima tira os homens das cinzas, mostra a realidade da vida espiritual. É um processo lento, gradativo, esclarecedor, amplia as potencialidades do espírito para a vida imortal e neste momento é que a abertura para as verdades eternas se farão e não mais haverá promessas de fim de ano que fiquem sem cumprimento. Impregnados de bem estar perceberemos que a reforma íntima é quem cura os males do espírito legando ao corpo novas concepções para a vida na Terra.
                                  
                                   Feliz 2017!



domingo, 18 de setembro de 2016

Santo de casa não faz milagre?

Proliferam os grandes eventos nas casas espíritas de todo o Brasil. São semanas espíritas, seminários, jornadas e outros que levam nomes de obras espíritas ou de grandes vultos como Allan Kardec e Chico Xavier. Até ai tudo perfeito, pois esta é uma das melhores formas de divulgar, para um grande público, o conhecimento legado pelo Espiritismo.

            Este modismo, em alguns lugares, tornou-se inclusive evento social, já esperado todos os anos, pelo esfuziante espetáculo que promovem com a presença de músicos, de palestrantes famosos, da mídia local, sorteios de livros isso para não falar nas recepções regadas a comes e bebes para receber o célebre orador.

            Antes mesmo do evento, o ilustre já é entusiasticamente esperado devido ao grande alarde feito, nas casas espíritas promotoras do evento, através de propagandas reiteradamente jogada nas mentes dos que frequentam as reuniões, com power points automaticamente repetidos, folders com fotos e o imenso currículo do indivíduo, que na grande maioria das vezes, de experiência e conhecimento espírita mesmo, não tem nada o que fica claramente demonstrado, quando, na hora “h”, o “enrolation” fica patente: cantam (não que tenha nada contra a música, há palestras espíritas cantadas que são muito boas, outras, nem por isso...), leem slides, dão foras históricos homéricos, põem o ego em evidência o tempo todo expondo suas vastas qualidades, fazem megas apresentações que não se vê nem mesmo em palestras motivacionais – abrem os braços, pulam, rodam, apontam o dedo, contam piadas - entre outras manifestações exacerbadas aplaudidos com paixão pelo público incauto e iludido pelos títulos apresentados. Isso para não esquecer os que estão interessados apenas em enfiar nesse mesmo público desprevenido seus CDs e livros, muitos de conteúdos questionáveis.

            Porque nos grandes eventos das casas espíritas os palestrantes locais ou da região circunvizinha não são convidados para apresentar um exórdio? Será que há um separatismo institucionalizado pelos dirigentes que colocam do lado esquerdo “os de dentro” que só estão aptos para as palestras do dia-a-dia e “os de fora” que notadamente famosos merecem o destaque na ilustre noite da casa espírita?

            Pelo nível de muitos palestrantes “de fora”, como se diz popularmente estamos sendo trolados... Mas ao que parece há uma cegueira geral dos dirigentes que não percebem ou não querem perceber a falta de qualidade de certos indivíduos que tem suas passagens e hospedagens devidamente pagas com o dinheiro daqueles a quem enrolam. Ou então é porque julgam que só haverá casa cheia se o palestrante for alguma celebridade. E neste ponto encontramos a grande falha das casas espíritas, pois se até mesmo os frequentadores corriqueiros, só aparecerão se houver espetáculo, é porque não estão cumprindo devidamente com seu trabalho de esclarecimento, nas reuniões públicas ou de estudos, sobre o que é o Espiritismo. E mais, casa cheia de encarnados leva por água abaixo o clássico discurso de que creem que o Cristo estará presente mesmo que só tenham dois ou três na assistência.

Que há muita gente boa, isso não se coloca em dúvida, mas há também pseudos palestrantes espíritas vestindo pele de cordeiro. Afinal, será que julgam que o palestrante local não tem capacidade para apresentar um tema em um grande evento? Se põem em dúvidas a capacidade dos companheiros que estão na luta diária a resolução é simples: capacitação, curso de oradores, curso de didática coisa que muitos famosos de fora parecem que nunca viram.

            Vamos acabar com essa história de que santo de casa não faz milagre, está mais do que na hora de fazer uma triagem entre os oradores que subirão ao púlpito espírita. Mentes brilhantes, com conhecimento espírita e em outras áreas e com grande poder de oratória estão em nosso convívio. Aprendamos rapidamente a perceber que há palestrantes que de Espiritismo mesmo só conhecem o nome... Confundem “alhos com bugalhos”, apresentam o tema sob o prisma de seu parco entendimento e o Espiritismo vira apresentação circense.  

            Ao que tudo indica, os dirigentes espíritas estão se deixando levar pelos aplausos da massa que também não conhece Espiritismo, mas que vê naquele espetáculo a face oculta de Deus... Onde estão os trabalhadores da casa, que percebem o mal caratismo de certos oradores? Estão se melindrando por quê? Porque são coagidos ou porque caem no conto piegas de que será falta de caridade apontar a falha do outro? Falta de caridade é deixar que shows deprimentes disfarçados de palestras, sejam vistos pelos neófitos como Espiritismo; falta de caridade é levar o nome de Kardec à lama pela falta de pudor dos que nada constroem em termos de Doutrina e de vida.

            Tenhamos em mente que não é fama, nem vínculo a algum núcleo espírita e nem tampouco currículo extenso que dá conhecimento a alguém e que palestra espírita não tem que se transformar em espetáculo para inglês ver. A palestra espírita, do dia-a-dia ou de grandes eventos, não é uma mera oratória, é uma aula, precisa e deve ser contextualizada, bem elaborada, pedagógica quer tenha cunho científico, moral, filosófico ou mesmo misto. É uma mensagem que precisa e deve ser levada com seriedade e simplicidade para que o público possa ter um bom entendimento. De nada adianta encher os olhos e os egos de pompa e ostentação e deixar a alma carente do conhecimento verdadeiro que leva à libertação. Herculano Pires dizia que as pessoas esperam que a casa espírita seja um templo com pregações religiosistas e de adoração e agora podemos também acrescentar que se esperam majestosos espetáculos em que sobressaem o glamour e a falta de objetividade.

domingo, 12 de junho de 2016

Invigilância

A falta de vigilância daqueles que zelam pela causa espírita tem atingido altos pontos no quesito negligência.  Para o bom entendimento, vigilância significa atenção, zelo, precaução, cuidado. E ao observarmos os rumos do Espiritismo, percebemos claramente que esta é artigo totalmente em falta.
Falada por alguns e desdenhada pela maioria, por acharem ser uma atitude sem importância, a falta de cuidados levou as crendices a adentrar as casas espíritas, muitas vezes disfarçadas de caridade que leva os incautos a acreditar que estejam evoluindo através da bondade. As crenças foram veementemente combatidas por Kardec, que apostou na razão como forma de rechaçar as superstições.
Quando não se leva em consideração os avisos, fatalmente as situações negativas ocorrem levando todos para uma suprema derrocada. O desconhecimento do significado da palavra vigilância leva desmesuradamente à invigilância, e isso é tão óbvio que se torna até ridículo explicar. Entretanto, nem tudo o que parece ser lógico realmente o é, e isto se torna verdadeiro quando damos de cara com espíritas empanturrados de filosofia e moral para os outros, mas que não aplicam a si mesmos.
Os centros, que deveriam primar por ser um espaço de estudo e divulgação do Espiritismo, foram transformados em locais onde as práticas de curandeirismo são a principal atividade além da intensa troca de favores que ocorre descaradamente. Mediunismo e mensagens supostamente espirituais onde os elogios ao médium que psicografa são o ponto em alta e as recomendações de Kardec para os devidos cuidados com a idoneidade dos espíritos e dos próprios médiuns, em baixa.  
A falta de precaução e estudos coloca à frente das casas espíritas pessoas despreparadas, totalmente ignorantes em relação ao Espiritismo do qual só conhecem, e mal, a mediunidade. Para todos os que procuram a casa com alguma necessidade, o mesmo diagnóstico, obsessão. Participantes de grupos de estudos são retirados dos mesmos sob a justificativa de que é médium e de que precisa participar da reunião mediúnica, como se uma coisa inviabilizasse a outra. E assim vão-se formando médiuns pautados na ignorância pela falta de estudos. Futuramente, repetirão seus “lideres”.
 No púlpito palestrantes artistas que apresentam um belíssimo espetáculo no melhor estilo religioso-motivacional. A cena seria cômica se não fosse patética. O aparelho de som aos estardalhaços e o dito palestrante a abrir os braços e a correr de um lado para o outro, mas parecendo um pavão. Isso para não falar nos falsos palestrantes que nada entendem da Doutrina Espírita e não escondem que nunca nem viram a capa de O Livro dos Espíritos...
 Devido à invigilância dos que se julgam profundos conhecedores da intimidade dos espíritos, as casas estão entregues a velhacos que dão brechas a espíritos de caráter duvidoso, levando o Espiritismo à falência pela extrema inércia do movimento que permite o desvirtuamento e a fraude em nome de uma pretensa irmandade.
A fórmula para a mudança vibratória e para acertar o passo na Doutrina, entendendo-a como Kardec a colocou é bem simples, vigilância, o que implica boa vontade e para se ter a boa vontade é preciso estudo e para estudar é preciso muito mais que fazer parte de grupos, é preciso saber aproveitar os conhecimentos adquiridos na melhoria de si mesmo.
Mas não há um rigor nos estudos nos núcleos espíritas no sentido de levar o indivíduo a perceber a necessidade de trabalhar a si mesmo, ninguém na verdade dá a mínima para os conselhos de Kardec e também não conhecem esses conselhos, pois nunca leram a Codificação e a prova disso é a penetração de pretensos médiuns que recebem também pretensos espíritos de artistas famosos.  A galera dos centros, na invigilância característica de cada dia, não só aplaude como incentiva o comércio dos quadros e outros objetos. Se tivessem o pudor de comparar assinaturas e obras desses artistas quando encarnados,  com as da suposta entidade espiritual, perceberiam as falhas.
E quem pode, dentro de um critério mínimo de razoabilidade, garantir que espíritos como Monet, Renoir, Van Gogh e outros ainda se encontram no mundo espiritual? E caso estejam, encontram-se à disposição de qualquer médium brasileiro? Logo, a conclusão é bem simplória, ou as pessoas no movimento espírita são extremamente ingênuas ou a falta de conhecimentos já ultrapassou todos os limites permitidos do bom senso. Por ai se vê por que as obsessões e as enganações permanecem e alastram-se de modo grotesco, pela falta de vigilância dos espíritas, o que comprova que os verdadeiros inimigos da Doutrina, aqueles que a estão detonando se encontram disfarçados na pele de fiéis trabalhadores. Tão “fiéis” que não percebem a diferença entre representação, imaginação e fenômeno mediúnico propriamente dito.