sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Mensagem de Ano Novo - Allan Kardec

As observações feitas por Allan Kardec na mensagem aos espíritas parisienses por ocasião do Ano Novo em 1862, não ficaram apenas no passado, ao contrário, é atual, e os que não tiverem preguiça de ler, por ser o artigo um pouco longo, poderão ter um vasto material para reflexão. Precisamos rever e  melhorar posturas e práticas no movimento espírita brasileiro neste Ano Novo que se inicia. Feliz 2018!

Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos
Ano V Fevereiro de1862 nº 2
Páginas: 58-65

RESPOSTA DIRIGIDA AOS ESPÍRITAS LIONESES POR OCASIÃO DO ANO-NOVO

Meus caros irmãos e amigos de Lyon,

Meus caros irmãos e amigos de Lyon, A mensagem coletiva que houvestes por bem me enviar pela passagem do Ano-Novo causou-me viva satisfação, provando que conservastes de mim uma boa recordação. Mas o que mais me alegrou nesse ato espontâneo foi ter encontrado, entre as numerosas assinaturas que ali figuram, representantes de quase todos os grupos, porque é um sinal da harmonia que deve reinar entre eles. Sinto-me feliz por terdes compreendido perfeitamente o objetivo dessa organização, cujos resultados já podeis apreciar, porquanto agora vos deve ser evidente que uma sociedade única teria sido quase impossível.

Agradeço-vos, meus bons amigos, os votos que formulais; eles me são tanto mais agradáveis quanto sei que partem do coração, e são estes que Deus ouve. Ficai satisfeitos, porque ele os acolhe diariamente, dando-me a alegria inaudita no estabelecimento de uma nova doutrina, de ver aquela a que me devotei crescer e prosperar, em meus dias, com extraordinária rapidez. Considero como um grande favor do céu poder testemunhar o bem que ela já fez. Essa certeza, da qual diariamente recebo os mais tocantes testemunhos, paga-me com juros todas as penas e fadigas. Não peço a Deus senão uma graça: a de me dar força física suficiente para ir até o fim de minha tarefa, que está longe de terminar. Mas, haja o que houver, terei sempre a consolação da certeza de que a semente das idéias novas, agora espalhadas por toda parte, é imperecível. Mais feliz que muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, a mim já é dado ver os primeiros frutos. Só lamento que a exigüidade de meus recursos pessoais não me tenha permitido pôr em execução os planos que tracei, a fim de que o avanço ocorresse de maneira ainda mais rápida. No entanto, se em sua sabedoria Deus o quis de outro modo, legarei esses planos aos meus sucessores que, sem dúvida, haverão de ser mais felizes. Apesar da penúria de recursos materiais, o movimento que se opera na opinião pública ultrapassou toda a expectativa. Crede, meus irmãos, que nisto o vosso exemplo teve influência. Recebei, pois, nossos cumprimentos pela maneira por que sabeis compreender e praticar a doutrina. Sei o quanto são grandes as provas que muitos de vós tendes de suportar; só Deus lhes conhece o termo neste mundo. Mas, também, quanta força contra a adversidade nos dá a fé no futuro! Oh! lastimai os que acreditam no nada após a morte, porquanto, para eles, o mal presente não tem compensação. O incrédulo infeliz é como o doente que não espera nenhuma cura; o espírita, ao contrário, é aquele que, doente hoje, sabe que amanhã estará bem.

Pedis que continue com os meus conselhos. Eu os dou com muito gosto aos que crêem necessitar deles e os reclamam. Mas só a esses. Aos que julgam muito saber e sentem-se dispensados das lições da experiência, nada direi; apenas desejo que um dia não se lamentem por haverem sobreestimado as próprias forças. Tal pretensão, aliás, acusa um sentimento de orgulho, contrário ao verdadeiro espírito do Espiritismo. Ora, pecando pela base, só por isto provam que se afastam da verdade. Não sois desse número, meus amigos; aproveito, pois, a circunstância para vos dirigir algumas palavras, a fim de provar que, de longe como de perto, sou todo vosso.

No ponto em que hoje as coisas se acham, e levando-se em conta a marcha do Espiritismo através dos obstáculos semeados em seu caminho, pode-se dizer que as principais dificuldades estão vencidas. Ele tomou o seu lugar e assentou-se em bases que doravante desafiam os esforços de seus adversários. Pergunta-se como pode ter adversários uma doutrina que nos torna felizes e melhores. Isto é muito natural. Nos seus primórdios, o estabelecimento das melhores coisas sempre fere interesses. Não tem sido assim com todas as invenções e descobertas que revolucionaram a indústria? Não tiveram inimigos obstinados as que hoje são consideradas como benefícios e das quais não poderíamos nos privar? Toda lei que reprime abusos não tem contra si os que vivem do abuso? Como queríeis que uma doutrina, que conduz ao reino da caridade efetiva, não fosse combatida pelos que vivem do egoísmo? E sabeis o quanto são estes numerosos na Terra. No princípio esperavam matá-lo pela zombaria; hoje vêem que tal arma é impotente e, sob o fogo cerrado dos sarcasmos, ele continuou sua rota sem se deter. Não penseis que se confessarão vencidos. Não; o interesse material é mais tenaz. Reconhecendo que é uma potência, com a qual agora é preciso contar, vão desferir ataques mais sérios, mas que só servirão para melhor provar a fraqueza deles. Uns o atacarão abertamente, em palavras e em ações, e o perseguirão até na pessoa de seus aderentes, tentando desencorajá-los a força de intrigas, enquanto outros, subrepticiamente, por vias indiretas, procurarão miná-lo secretamente. Ficai avisados de que a luta não terminou. Estou prevenido de que tentarão um supremo esforço; mas não temais: a garantia do sucesso está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Empunhai-a bem alto, porque ela é a cabeça de medusa para os egoístas.

A tática já posta em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha e tende como certo que aquele que procura, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode estar animado de boas intenções. Eis por que vos exorto a guardar a maior prudência na formação dos vossos grupos, não só para a vossa tranqüilidade, mas no próprio interesse dos vossos trabalhos.

A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há recolhimento possível se somos distraídos pelas discussões e pela expressão de sentimentos malévolos. Se houver fraternidade não haverá sentimentos de malquerença; mas não pode haver fraternidade com egoístas, com ambiciosos e orgulhosos. Com orgulhosos, que se escandalizam e se melindram por tudo; com ambiciosos, que se decepcionam quando não têm a supremacia, e com egoístas que só pensam em si mesmos, a cizânia não tardará a ser introduzida e, com ela, a dissolução. É o que gostariam os inimigos e é o que tentarão fazer. Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranqüilidade, de estabilidade, faz-se mister que nele reine um sentimento fraternal. Todo grupo que se formar sem ter por base a caridade efetiva, não terá vitalidade, ao passo que os que se fundarem segundo o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, embora não podendo viver sob o mesmo teto, moram em lugares diversos. Entre eles a rivalidade seria uma insensatez; não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porquanto esta não pode ser entendida de duas maneiras. Assim, reconhecereis o verdadeiro espírita pela prática da caridade em pensamentos, palavras e ações; e vos digo que aquele que em sua alma nutrir sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si mesmo se aspira a compreender e a praticar o Espiritismo.

O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como destroem os povos e a sociedade em geral. Lede a História e vereis que os povos sucumbem sob a opressão desses dois mortais inimigos da felicidade dos homens. Quando se apoiarem nas bases da caridade, serão indissolúveis, porque estarão em paz entre si e com eles próprios, cada um respeitando os direitos e os bens dos vizinhos. Eis a era nova predita, da qual o Espiritismo é o precursor, e para a qual todo espírita deve trabalhar, cada um em sua esfera de atividade. É uma tarefa que lhes compete e da qual serão recompensados conforme a maneira por que a tenham realizado, pois Deus saberá distinguir os que, no Espiritismo, não buscaram senão a sua satisfação pessoal, daqueles que ao mesmo tempo trabalharam pela felicidade de seus irmãos.

Devo ainda vos chamar a atenção para outra tática de nossos adversários: a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua competência e que poderiam, com toda razão, despertar susceptibilidades e desconfianças. Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa. Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma conseqüência natural. Trabalhando pelo progresso moral, assentareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, deixando a Deus o cuidado de fazer que as coisas cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que ainda é jovem, mas que amadurece depressa, deveis opor uma firmeza inabalável aos que buscarem vos arrastar por um caminho perigoso.

Visando a desacreditar o Espiritismo, pretendem alguns que ele vai destruir a religião. Sabeis que é exatamente o contrário, pois a maioria de vós, que mal acreditáveis em Deus e na alma, agora crêem; quem não sabia o que era orar, ora com fervor; quem não mais punha os pés nas igrejas, a elas vão com recolhimento. Aliás, se a religião devesse ser destruída pelo Espiritismo, é que ela seria destrutível e o Espiritismo mais poderoso. Afirmá-lo seria falta de habilidade, porquanto seria confessar a fraqueza de uma e a força do outro. O Espiritismo é uma doutrina moral que fortalece os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões; é de todas, e não pertence a nenhuma em particular. Por isso não aconselha a ninguém que mude de religião. Deixa a cada um a liberdade de adorar Deus à sua maneira e de observar as práticas ditadas pela sua consciência, pois Deus leva mais em conta a intenção que o fato. Ide, pois, cada um, ao templo do vosso culto, e assim provareis que vos caluniam, quando vos acusarem de impiedade.

Na impossibilidade material em que me acho de manter relações com todos os grupos, pedi a um de vossos confrades que me representasse especialmente em Lyon, como o fiz alhures: é o Sr. Villon, cujo zelo e devotamento conheceis tão bem quanto a pureza de seus sentimentos. Além disso, sua posição independente lhe dá mais folga para a tarefa de que se quer encarregar; tarefa pesada, mas ante a qual não recuará. O grupo por ele formado em sua casa o foi sob os meus auspícios e conforme minhas instruções, quando de minha última viagem. Ali encontrareis excelentes conselhos e salutares exemplos. Verei com viva satisfação todos os que me honram com a sua confiança a ele se ligarem, como a um centro comum. Se alguns quiserem fazer um grupo à parte, evitai olhá-los com aversão; e, se vos atirarem pedras, não as recolhais, nem as devolvais: entre eles e vós Deus será o juiz dos sentimentos de cada um. Que aqueles que se julgam os únicos certos o provem por maior caridade e maior abnegação, porquanto a caridade não poderia estar do lado daquele que não cumpre o primeiro preceito da doutrina. Se estiverdes em dúvida, fazei sempre o bem: os erros do espírito sempre pesam menos na balança de Deus que os erros do coração.

Repetirei aqui o que já disse em outras oportunidades: em caso de divergência de opinião, o meio fácil de sair da incerteza é ver qual a opinião que reúne o maior número de partidários, pois há nas massas um bom-senso inato que não se deixa enganar. O erro só seduz alguns espíritos enceguecidos pelo amor-próprio e por um falso julgamento, mas a verdade acaba sempre vitoriosa. Tende certeza de que o erro deserta das fileiras que se esclarecem, e que há uma obstinação irracional em crer que um só tenha razão contra todos. Se os princípios que professo só encontrassem alguns ecos isolados e fossem repelidos pela opinião geral, eu seria o primeiro a reconhecer que me havia enganado. Mas vendo crescer incessantemente o número dos aderentes, em todas as classes da sociedade e em todos os países do mundo, devo acreditar na solidez das bases sobre as quais repousam. Eis por que vos digo com toda a segurança: marchai firmemente na via que vos é traçada; dizei aos vossos antagonistas que, se quiserem que os sigais, que vos ofereçam uma doutrina mais consoladora, mais clara, mais inteligível, que melhor satisfaça à razão e que, ao mesmo tempo, seja uma garantia para a ordem social. Pela vossa união, frustrareis os cálculos dos que vos quisessem dividir. Provai, enfim, pelo vosso exemplo, que a doutrina nos torna mais moderados, mais brandos, mais pacientes e mais indulgentes. Esta é a melhor resposta a ser dada aos detratores, ao mesmo tempo que a vista dos resultados benéficos é o mais poderoso meio de propaganda.

Eis, meus amigos, os conselhos que vos dou e aos quais acrescento os meus votos de Boas-Festas para o ano que começa. Não sei que provas Deus nos destina este ano, mas sei que, sejam quais forem, as suportarei com firmeza e resignação, pois sabeis, para vós, como para o soldado, que a recompensa é proporcional à coragem.

Quanto ao Espiritismo, pelo qual mais vos interessais que por vós mesmos, e cujo progresso, pela minha posição, posso julgar melhor que ninguém, sinto-me feliz em vos dizer que o ano se inicia sob os mais favoráveis auspícios e, sem dúvida, verá crescer o número de adeptos numa proporção impossível de ser prevista. Mais alguns anos como estes que se passaram e o Espiritismo terá arrebanhado três quartas partes da população.

Deixai que vos cite um fato entre milhares. Num Departamento vizinho de Paris existe uma pequena cidade onde o Espiritismo penetrou apenas há seis meses. Em poucas semanas tomou um desenvolvimento considerável; uma oposição formidável foi logo organizada contra os seus partidários, ameaçando até mesmo os seus interesses privados. Eles enfrentaram tudo com uma coragem e um desinteresse dignos dos maiores elogios; entregaram-se à Providência e a Providência não lhes faltou. Essa cidade conta uma população operária numerosa, em cujo meio as idéias espíritas, graças à oposição que fizeram, manifestam-se rapidamente. Ora, um fato digno de nota é que as mulheres e as jovens, em vez de aguardarem os habituais presentes do Ano-Novo, preferiram adquirir as obras necessárias à sua instrução, de modo que, só para essa cidade, encarregou-se um livreiro de as expedir às centenas. Não é prodigioso ver simples operários reservarem suas economias para comprar livros de moral e de filosofia, em lugar de romances e bugigangas? homens preferindo esta leitura às alegrias ruidosas e degradantes dos cabarés? Ah! é que aqueles homens e aquelas mulheres, sofredores como vós, agora compreendem que não é aqui que se realiza a sua sorte; ergue-se a cortina e eles entrevêem os esplêndidos horizontes do futuro. Esta cidadezinha é Chauny, no Departamento do Aisne. Novos filhos na grande família, eles vos saúdam, companheiros de Lyon, como seus irmãos mais velhos, formando, desde agora, um dos elos da cadeia espiritual que já une Paris, Lyon, Metz, Sens, Bordeaux e outras, e que em breve ligará todas as cidades do mundo num sentimento de mútua confraternidade; porque em toda parte o Espiritismo lançou sementes fecundas e seus filhos se dão as mãos por cima das barreiras dos preconceitos de seitas, castas e nacionalidades.

Vosso dedicado irmão e amigo,

Allan Kardec.

        
        

         

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Finados



   "Nascer, morrer, renascer e progredir sem cessar, tal como é a lei"

       Neste dia no qual se celebra os que já partiram da Terra, convém lembrar que a morte, de modo definitivo só existe para o corpo físico. O Espírito permanece vivo, não perde a sua integridade. Por este dia, em que muitos choram e lamentam a "perda" de entes queridos, um lindo poema de Mary Frye:


Não chores diante do meu túmulo
Eu não estou lá
Eu não durmo
Eu sou os mil ventos que sopram
Eu sou o diamante que cintila na neve
Eu sou o sol nos grãos maduros
Eu sou a suave chuva de outono
E quando acordares no silêncio da manhã
Eu sou a prontidão inspiradora
Das aves tranquilas circulando em voo
Eu sou as estrelas que brilham suave na noite
Não chores diante do meu túmulo
Eu não estou lá
Eu não morri.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Movimento espírita e sensacionalismo




O sensacionalismo e as notícias falsas fazem mais do sucesso do que as boas e sérias. A audiência de sites e blogs, que alardeiam a mentira sobre o manto da verdade é um espanto e os incautos de plantão repassam e curtem nas redes sociais sem o mínimo critério de avaliação. De situações banais como a publicação da morte de famosos a outras que manipulam eleitores e levam inescrupulosos ao poder, o fake news está em todo lugar e o movimento espírita não se encontra isento. Das fraudes mediúnicas às comunicações criadas pelas celebridades instantâneas disfarçadas em mensagens de paz e amor oriundas supostamente de espíritos, vemos o disseminar de mentiras que ainda são defendidas, dentro do movimento, por uma massa de “espíritas” acéfalos que jamais em suas vidas procuraram conhecer a realidade por trás das falácias. Muitos dos que defendem as ilusões nunca leram Kardec e das obras básicas só conhecem as compilações e comparações mal feitas pelos diversos aproveitadores que se dizem escritores.
Desta forma foi que o Espiritismo se difundiu no Brasil, não só graças aos que se dizem espertos e usaram suas astúcias para entortar e mistificar como graças aos bajuladores e ociosos de plantão que julgam que tudo o que se diga oriundo do mundo espiritual seja verdadeiro e divino.
Mensagens encharcadas por um religiosismo melodramático que transformam espíritos desencarnados em sábios e em santos e que de uma hora para outra também passam a profetizar sobre o futuro das pessoas e do mundo... A situação é deveras preocupante, e ainda há quem acredite em melhoria do planeta...
Mas em um país, onde o que vende é o sensacionalismo aliado ao embuste religioso, não demorou muito para que instituições que deveriam zelar pelo bom nome do Espiritismo, editoras e autores na ânsia do dinheiro fácil e de encher os centros de frequentadores, transformassem a Doutrina, que é uma Ciência e uma Filosofia de consequências morais em mais uma religião, sem se importar se mentem ou distorcem o Espiritismo. Não foi difícil convencer o povo, usando o manto da fé. Foi deveras fácil colocar na cabeça dos desavisados histórias surreais sobre o nosso destino de salvadores da Terra, onde se insere o assunto sobre a regeneração do planeta. Outra história bastante difundida é a das “crianças índigo”, onde ressaltam que nos últimos 20 anos estão encarnando, no plano terrestre, espíritos altamente inteligentes preparados para ajudar os atrasados e o próprio planeta no processo de transição.
Ora bem, em fixando o olhar neste momento, para a transição, percebemos ser esta uma história na qual o que se leva em consideração é o achismo de quem fala que apela ao mito que sobrevive no imaginário dos crentes, tal qual na Europa dos séculos XIV e XV onde a ideia de monstros marinhos assombravam as populações. Desta forma, surgem imagens icônicas de grandes tsunamis e terremotos ceifando vidas, principalmente dos espíritos ainda renitentes ao mal e do outro lado, a ideia bíblica de uma Terra onde prepondera a paz e o reino de Deus para os escolhidos. Assim, a ideia de que o planeta Terra se autodestruirá e surgirá linda e fagueira uma terra de maná, leite e mel se fortalece e nos convencemos de que nada precisamos fazer, a não ser manter uma capa de bonzinho orando a Deus insistentemente pela nossa proteção e salvação.
O planeta Terra não é uma matéria estável.  Existem vulcões, falhas tectônicas e essas placas estão em constante movimento que provocam terremotos e maremotos. Fenômenos naturais que sempre existiram e que para saber sobre eles, basta o uso da razão, tão apregoada por Allan Kardec e uma incursão séria pela história da humanidade: em 1755 Lisboa foi devastada por um grande terremoto seguido de tsunami; no ano de 1138 um grande tremor de Terra abalou as estruturas da cidade de Aleppo, na Síria; em 1920 foi a vez de a terra tremer de modo avassalador na China, fato que ficou conhecido como O Terremoto de Gansu; na primavera do ano 526 um terremoto de grandes proporções atingiu a Antioquia e a Síria.
Mas, seguindo a trilha das distorções, trabalha-se no Brasil com a ilusão da pátria do evangelho, do país tropical abençoado por Deus... De um país sem catástrofes... Será? E as grandes chuvas e enchentes que derrubam morros e varre do cenário terrestre cidades e pessoas? Ou será que enchentes e deslizamentos de terra não são catástrofes? E nisto claramente a falta de senso, ora, se somos uma terra tão abençoada, porque o alarmismo? O estudo equilibrado faz falta, porque em sua ausência reina a ignorância.
         Kardec em A Gênese esclarece, a transição é moral e como hoje a moda é cultivar atitudes esdrúxulas como se fossem nobilitantes, creio estarmos bem longe de uma melhoria, já que esperamos que o mundo se torne bom sem que façamos esforços pessoais para isso. E se atentarmos para a história, perceberemos que a ideia de um mundo melhor e de uma nação com destino missionário não é um fenômeno novo como muitos querem enfatizar, basta voltarmos os olhos, por exemplo, para a história de Israel.



Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra... E vai para a terra que mostrarei; de ti farei uma grande nação... Abençoarei os que abençoaram, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gênesis, 12, 1-3).

O Senhor teu Deus te escolheu, para que fosses o seu povo próprio, de todo os povos que há sobre a terra. (Deuteronômio, 7 -6).

Algumas histórias chegam a ser engraçadas à primeira vista, mas ao observarmos atentamente, percebemos que são frutos da crença vazia, logo, filha da ignorância, como é o caso ocorrido na Inglaterra em 1806, na cidade de Ledds, onde foi proclamado o retorno do Cristo à Terra através de uma galinha... Conta-se que a galinha começou a pôr ovos onde aparecia a frase “Cristo está chegando” e logo, a população estava crente de que o fim do mundo estaria próximo... Como relata um jornalista da época, as pessoas logo se tornaram religiosas e passaram a rezar de modo fervoroso e constante, dizendo-se arrependidas de seus pecados.

Mas então há os que questionarão estas meras palavras, mas espero que questionem de forma inteligente e não com as mesmas baboseiras, de cunho fanático religioso, tão comum aos igrejeiros de plantão no movimento espírita no qual se misturam mensagens de supostos espíritos ou de seres planetários gabando-se de serem os profetas do apocalipse, ou melhor, da transição planetária. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Herculano Pires


Herculano Pires, um nome a ser sempre lembrado no meio espírita, grande e profundo estudioso da Doutrina, combateu de forma veemente as fraudes e demais embustes levados a feitos por aqueles que se diziam espíritas. De caráter irrepreensível, legou-nos alertas memoráveis que infelizmente vem sendo deixados de lado pelos detratores que tanto combateu no meio espírita. Adepto de um Espiritismo que respeitasse a Codificação foi um dos maiores estudiosos de Kardec. Sempre vale a pena relembrar os seus alertas, visto que, a deturpação do Espiritismo não é um fato acontecido apenas em seu tempo. Um grande defensor da causa espírita e no dizer de Deolindo Amorim, “Temos nele, sem exagero, um dos mais positivos padrões morais e intelectuais do movimento espírita brasileiro (...)”.

No texto abaixo, retirado de uma de suas obras, a explicação lúcida sobre o trabalho na casa espírita que merece ser lido, relido e refletido principalmente por aqueles que se julgam trabalhadores da seara espírita.

O CENTRO E A COMUNIDADE 


“O centro Espírita não surge arbitrariamente, nem por determinação de alguma instituição superior do movimento doutrinário. Ele é sempre o produto espontâneo de uma comunidade espírita que se formou num bairro, numa vila ou numa cidade. Essa comunidade é sempre extremamente heterogênea, formada por espíritas e simpatizantes da Doutrina, membros de correntes espiritualistas diversas e de religiosos indecisos ou insatisfeitos com as seitas que se filiaram ou que pertencem por tradição familial. Há, porém, um denominador comum para essa mistura: o interesse pelo Espiritismo. Esse interesse, por sua vez, decorre de vários motivos, entre os quais predominam as ocorrências de fatos mediúnicos nas famílias, geralmente em formas de perturbações psíquicas. Dessa maneira, os fundadores do Centro e seus auxiliares enfrentam desde o início muitos problemas e dificuldades. Ë necessária a presença de uma pessoa que tenha conhecimento doutrinários e experiência da prática mediúnica, para que o Centro não fracasse nos seus primeiros meses de existência. Não havendo no grupo fundador uma pessoa nessas condições, é necessário recorrer-se a pessoas de Centro das proximidades, que sempre atendem de boa vontade. O Espiritismo não é proselitista, não entra na disputa sectária de adeptos das religiões, mas devem os espíritas, necessariamente, interessar-se pelos que se interessam pela Doutrina. Esclarecer e orientar sempre é dever espírita.
O conhecimento dos problemas mediúnicos exige estudo incessante das obras básicas de Allan Kardec, particularmente estudos permanentes do Livro dos Médiuns e leitura metódica da Revista Espírita de Kardec, em que os leitores encontram, além de numerosas instruções, relatos de fatos e observações de pesquisas que muito ajudam no trato de problemas atuais. Sem estudo constante da Doutrina não se faz Espiritismo, cria-se apenas uma rotina de trabalhos práticos que dão a ilusão de eficiência. Estudo e pesquisa, observação constante dos fatos, análise das mensagens recebidas, observação dos médiuns, exigência de educação mediúnica, com advertências constantes para que os médiuns aprendam a se controlarem, não se deixando levar pelos impulsos recebidos das entidades comunicantes – esse é o preço de trabalhos mediúnicos eficazes. Mas, acima de tudo e antes de tudo: humildade. Porque Espiritismo sem humildade é água poluída, cheia dos germes da pretensão, da vaidade, do orgulho que atraem os espíritos inferiores. Um presidente de Centro não é Presidente da República e um doutrinador não é um sábio. Pelo contrário, são criaturas necessitadas, que estão aprendendo a arte difícil de servir e não a de baixar decretos, dar ordens e humilhar os outros em públicos. Sem humildade, que gera e sustenta o amor ao próximo, nem o estudo pode dar frutos. Por outro lado, sem estudo os frutos da humildade não produzem amor, mas fingimento, hipocrisia de maneira e fala melosa, de voz impostada para imitar anjos.
O Espiritismo é natural e exige naturalidade dos que pretende vivê-lo no dia-a-dia, em relação natural e simples com o próximo. Os maneirismos, as modulações artificiais da voz, os excessos de gentileza mundana e tudo quanto representa artifício de refinamento social, deformando a natureza humana a pretexto de aprimorá-la, não encontraram aceitação nos meios verdadeiramente espíritas. Algumas instituições começaram a adotar, há alguns anos, treinamento de voz e de gesticulação para jovens espíritas. Alguns Centros aderiram e essas encenações, estimulados por mensagens espirituais que aconselham brandura e bondade no trato com a semelhantes. Espíritos ainda apegados aos formalismos religiosos do passado chegaram a recomendar modismos nesse sentido. Nem Jesus nem Kardec se utilizaram nem recomendaram essas imitações da hipocrisia farisaica. O que o Espiritismo objetiva é a transformação interior das criaturas, para que se tornam mais esclarecidas e com isso, dotadas de mente mais arejada e coração mais puro. No Centro Espírita devemos manter a mais plena naturalidade de comportamento, dentro das normas naturais do respeito humano. As modificações exteriores, precisamente por serem forçadas e portanto mentirosas, não exercem nenhuma influência em nosso interior. O contrário é que vale: quem exercitar-se na prática das boas ações, da verdade e da sinceridade, modificará sem querer e perceber o seu comportamento, sem nenhum dos sintomas desagradáveis de fingimento e hipocrisia. O Espiritismo, que nos foi legado pelo Cristo através do Espírito da Verdade, não pode adotar os expedientes da mentira. O Centro Espírita tem mais com que se preocupar, do que com essas repetições de um longo passado de traições e perfídia, em que sacerdotes treinados nos gestos e expressões de piedade, mandavam queimar vivos os seus semelhantes em nome do Cristo.
A facilidade com que a maioria das pessoas aceita livros de evidente mistificação, como os Evangelhos de Roustaing, as obras de Ramatis, e tantas outras, eivadas de contradições e de passagens ridículas, destinadas especialmente a ridicularizar a Doutrina, provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical. No Espiritismo não objetivamos o domínio do mundo por nenhuma forma igrejeira, através de engodos demagógicos, mas unicamente o esclarecimento das criaturas para que a Terra se eleve em suas condições morais e espirituais. O sistema igrejeiro de adulação aos médiuns, no desejo de obter as suas graças, é outra raiz amarga que nos vem do passado religioso, mas que não deve ser cultivado no Centro Espírita. O médium adulado, louvado a todo instante, cercado de admiradores como um cantor popular, artista de novela de tv ou jogador de futebol, acaba perdendo a sua naturalidade, recorrendo a expedientes ridículos para conservar o seu prestígio e geralmente chega em falência ao fim da sua missão. Os exemplos são muitos e dolorosos, no mundo inteiro. Essa situação constrangedora coloca o Espiritismo em pé de igualdade com as religiões formalista, deturpando-lhe a imagem real. Médiuns, expositores e escritores espíritas não são luminares nem santos, mas criaturas falíveis que podem também cair a qualquer instante de seus falsos pedestais. Devemos respeitar naturalmente a essas criaturas como nossos irmãos dedicados à Doutrina ( quando não a traem em favor de suas opiniões pessoais ) sim devemos respeita-los e louvar os seus esforços, mas sem cairmos no exagero de idolatrias beatas.
O conceito de mediunidade que vigora entre nós, na maioria esmagadora dos Centros, é espantosamente ambivalente e portanto contraditória. Afirma-se ao mesmo tempo que a mediunidade é uma graça e uma provação, , que os médiuns são espíritos grandemente faltosos, não obstante adorados como enviados de Deus. Os que estudam seriamente a Doutrina logo percebem a falsidade desse conceito. A mediunidade é uma faculdade natural da espécie humana, como todas as demais faculdades. Toda criatura humana é naturalmente dotada de mediunidade. Kardec observou a existência da mediunidade generalizada. Mas a mediunidade manifesta-se nas criaturas em diferentes graus de desenvolvimento. Todos somos médiuns, todos possuímos o que hoje se chama de percepção extrassensorial, segundo a terminologia parapsicológica. Ë natural que os que revelam graus mais intensos de mediunidade, prestando-se por isso a trabalhos mediúnicos, sejam especificamente designados como médiuns, da mesma maneira por que todos possuímos inteligência, mas só os que possuem em grau excepcional são designados como “uma inteligência “,merecendo os louvores e o respeito dos que não atingiram esse grau.
Os médiuns são os elementos principais da ligação do Centro Espírita com a comunidade social do bairro ou da cidade. São mesmo com os elos genésicos dessa ligação. Suas faculdades mediúnicas exercem atração natural sobre a comunidade e os serviços que prestam no Centro ou nos atendimentos eventuais, fora dele, ampliam a simpatia popular pelo Centro. Essa função do médium é natural e inconsciente. Partes integrantes da comunidade, vivendo no meio do povo como povo, sem nenhum título especial que os separe da massa, quanto mais simples e despretensiosos eles forem, mais eficientes serão na sua função espontânea de elos. Quando o médium é pedante, pretensiosos, contador de vantagens, sabereta, arrogante, essas antivirtudes o transformam em elemento negativo na dinâmica social. Por isso o médium deve compreender bem a sua condição de criatura normal integrada no povo e não de elemento excepcional , dotado de poderes divinos ou convencido de possuí-los. Os dirigentes do Centro podem reforçar ou enfraquecer as ligações deste com a comunidade. Basta um presidente arrogante, sempre disposto a criticar e humilhar os adeptos de seitas existentes na comunidade, para que os elos estabelecidos pelos médiuns sejam rompidos. Atacar religiões e práticas religiosas dos outros é o meio mais fácil de afastalos do Centro. Essa crítica pode e deve ser feita em termos de comparação histórica, nas reuniões especiais de estudo doutrinário, com ampla liberdade de discussão a respeito, reconhecendo-se a existência dos fatores temporais que no passado, foram benéficos à solução espiritual dos homens, tornando-se mais tarde prejudiciais ao esclarecimento espiritual do povo. Mesmo assim, é conveniente evitar exageros, para que essas debates elucidativos não se transformem em pedra de tropeço para as pessoas simples e de boa-fé. Em todas as atividades do Centro deve prevalecer o princípio de amor e respeito ao próximo, não para atrair simpatias, mas, para não causar aborrecimento e prevenções nas pessoas que desejam adquirir conhecimentos renovadores.
O Centro Espírita não é um instrumento de conversões, mas também não pode ser um instrumento de dissensões. O Espiritismo não quer impor-se aos outros, mas ajudar e esclarecer os que o procuram. Se existirem na comunidade elementos, desses que fazem de cada espírita um diabo disfarçado em gente, um instrumento do diabo para enganar as almas, o centro não deve aceitar as sua provocações negativas. Essas pessoas, geralmente exaltadas e insolentes, são vítimas de seu próprio temperamento e também das deformações sectárias do Cristianismo e das épocas de fanatismo, maldições, excomunhões e perseguições, que embora distantes, ainda permanecem no inconsciente de muitas criaturas, forçando-as a atitudes anticristãs e ridículas. Hoje os tempos são outros e o Centro Espírita pode responder a essas agressões – como fazia Kardec – não com revides violentos, mas com esclarecimento serenos e fraternos.
Mas temos de vigiar a nossa tolerância, para não cairmos no charco da hipocrisia, no fingimento de uma bondade que não possuímos. A regra de comportamento espírita deve ser a de Jesus: “mansos como as pombas, prudentes como as serpentes”. O Centro Espírita guarda em seu seio as colheitas da Verdade e precisa defendê-las, mantê-las puras e vivas, para com elas saciar a fome do mundo. Jesus imolou-se por essa colheita de sua própria semeadura, mas enquanto foi necessário defender a seara manteve atitudes viris contra os pregoeiros da mentira e da ilusão. Se deixarmos o Centro abandonado à fúria dos fariseus, eles o destruirão sem nenhum escrúpulo, sob rajadas de calúnias e perfídias. O Centro Espírita é a pequena e humilde fortaleza da Verdade na Terra da Mentira. Tem a obrigação de lutar para que a Verdade prevaleça em toda a sua dignidade.
A incapacidade humana para assimilar os ensinos de Jesus levou o Cristianismo a dois extremos que somente Kardec soube rejeitar, estabelecendo o equilíbrio na balança do bom-senso. Os espíritas não podem oscilar entre o extremo da arrogância criminosa, geradora de guerras e destruições, e o extremo da covardia disfarçada em humildade, que sempre cala e tudo cede aos insolentes agressores. Há um limite para a tolerância, traçado por Jesus em torno da mulher inerme que os hipócritas queriam apedrejar.
Propagou-se no meio espírita, através de mensagens mediúnicas emotivas, tendendo a um masoquismo de cilícios e autopunições, a estranha idéia de que a virilidade só pertence aos cultores da violência. Voltamos assim ao sistema igrejeiro dos rebanhos de ovelhinhas inocentes devoradas por lobos famintos sem qualquer possibilidade de defesa. Entregues a essa idéia derrotista, o meio espírita abastardou-se a ponto de até mesmo recusar-se a defender a Doutrina aviltada pela ignorância travestida de bondade e doçura. A falsa imagem do “ Meigo Nazareno” , que a tudo cedia – comprometendo a sua própria missão – apagou na mente de adeptos desprevenidos a imagem viril de Jesus empunhando o chicote no Templo contra vendilhões. Já é tempo de compreendermos que estamos na Terra para conquistar e defender a dignidade humana, sem nos curvarmos atemorizados ante as investidas da impostura. Quem não defende a Verdade traída e conspurcada pela mentira não é digno dela. E quem não é digno da Verdade entrega-se à mentira. Jesus enfrentou os mentirosos atrevidos, num dos pátios do Templo como nos revela o Evangelho de João, dizendo-lhes face a face : “Vós sois do Diabo e vosso pai foi ladrão e assassino desde o princípio “. Duras palavras, a que os mentirosos quiseram responder com pedradas. Mas Jesus desapareceu, ensinando-lhes que as pedras da mentira não podem atingir o alvo da Verdade. Os espíritas seráficos, candidatos apressados a uma angelitude que ainda estamos longe de alcançar na Terra, não compreendem o sentido desse trecho evangélico e são capazes de expungi-lo do Evangelho em nome de uma santidade covarde que Jesus jamais ensinou. A figura evangélica de Jesus é recortada em traços fortes e viris. Sua coragem de encarnar-se na Terra para enfrentar os poderes do mundo como homem, sua audácia na condenação dos poderosos do tempo, sem recorrer a sofismas, sua bravura ao entregar-se para o sacrifício da cruz para ensinar aos homens a glória de morrer pela Verdade – são lições que devemos aprender, se quisermos nos fazer dignos de segui-lo.
O Centro Espírita se entranha naturalmente na comunidade, é parte dela, um órgão ativo e operante da estrutura social. Por mais humilde e simples que seja, é uma fonte de consolações, um posto de orientação para os que se aturdem e se transviam, mãos amigas estendidas na bênção do passe, canal sempre aberto da caridade e do amor. Mas é também a trincheira serena e vigilante da Verdade, o tribunal que não condena, mas ajuda e absorve através do esclarecimento espiritual. Os que buscam a paz e a esperança encontram nele a compreensão que pacifica o espírito e a razão que justifica a fé nas provas da Verdade. Por tudo isso a sua posição na comunidade é a de um coração comum aberto a todos e de uma consciência lúcida a orientar a todos, na permanente doação dos ensinos e socorros gratuitos.
A responsabilidade dos dirigentes e colaboradores dessa instituição cristã, humilde e simples é, entretanto, grandiosa e complexa. A voz dos espíritos soa dia-e-noite no silêncio dessa concha acústica da Verdade, no murmúrio secreto das fontes da intuição, advertindo aos que sofrem e aos que gozam quanto a precariedade das ilusões terrenas e a eternidade das leis da vida no Universo infinito. Quanto mais simples é o Centro em bens materiais, maior é a sua riqueza em bens espirituais”.

PIRES, Herculano. O Centro Espírita. São Paulo: Paideia, 1980, p. 25-34.

         

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Espiritismo: o futuro das religiões


As religiões em si pregam a existência de uma incompatibilidade com o Espiritismo. Para elas, não há possibilidade de se proferir uma fé e acreditar na existência de espíritos, na reencarnação ou mesmo na imortalidade da alma. Expressam que duas concepções não podem ocupar o mesmo lugar na mente do fiel, e nas alegações promovem o Espiritismo a um sistema anticristão.
Seria realmente impossível professar duas concepções caso fosse, o Espiritismo, uma religião institucionalizada, com ritos e dogmas, um cortejo de hierarquias e cerimônias conforme explica Kardec em artigo da Revista Espírita (1868, p. 491).
O Espiritismo é uma doutrina de tríplice aspecto: ciência experimental, doutrina filosófica e moral. Como ciência não se ocupa de dogmas e como filosofia possui consequências morais e não religiosas. Proclama a liberdade de consciência como um direito natural, combate a fé cega que leva o homem a perder o crivo da razão e do bom senso e não impõe a quem quer que seja que para acreditar em seus princípios tenha que se despir de suas crenças. Para Kardec, a comunhão de pensamentos, em torno de crenças, seria fundamental para legar à humanidade ações e efeitos evolutivos, a partir da harmonia e da emanação de fluidos benéficos por ser a Doutrina Espírita universalista e por isso mesmo congregar todos os sentimentos religiosos.
Kardec (2008, p. 298),alerta para a implantação da fraternidade e diz que esta é a base para uma nova ordem, tendo como pilar a fé inabalável, não focada em dogmas, mas em princípios relevantes: Deus, alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a perpetuidade das relações entre os seres quando os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos. De acordo com o entendimento, percebe-se que a incompatibilidade professada entre os credos parte essencialmente da ignorância dos homens sobre a natureza de Deus, que os leva a reduzir a existência a uma luta entre deuses de diversas religiões. Quando, portanto houver o entendimento de que os rótulos são puramente fantasia para a perpetuação do maniqueísmo, haverá a compreensão de que temos um único Pai e um único Mestre.
Léon Denis, no cap. XI de No Invisível (2008), ao ratificar a universalidade da Doutrina Espírita, esclarece que aos poucos as religiões irão congregar os conceitos fundamentais do Espiritismo e ficarão tão semelhantes que não haverá como diferenciá-las umas das outras, pouco importando qual se seguirá, pois haverá uma relação equilibrada entre elas, em seus conceitos de vida e espiritualidade e a união de pensamentos e ações pelo bem universal será uma realidade incontestável, conforme pensava Kardec.
A união de pensamentos e a fraternidade, base para a fé inabalável, começa a se tornar fato real. No dia 24 de abril de 2016, o companheiro do Observatório de Pedagogia Espírita, Orlando Moura, ordenou-se diácono da Igreja Católica Livre, uma variante da Igreja Romana, porém sem laços com esta última, ainda arraigada a ritos e dogmas, mas livre da imposição do celibato, do uso da cruz e das imagens e comungando dos princípios da Doutrina Espírita.
Essa ordenação foi um marco para o movimento espírita da cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, visto que a cerimônia foi realizada em uma casa espírita, pelo bispo e demais representantes da Igreja Livre e com a presença de espíritas, católicos, evangélicos e adeptos da Igreja Messiânica. Eis o Espiritismo como o futuro das religiões.

REFERÊNCIAS

DENIS, Léon. No invisível (1911). Disponível em: http://bit.ly/noinvisivel-leondenis. Acesso abril 2016. pp. 92-98
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 2. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2010.
KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: CELD, 2008.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. 11º ano, 1868, p. 491.

  





sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Promessas de fim de ano, educação moral e progresso do espírito



Como todo final de ano, é hora das promessas para alteração da vida no ano novo. Expectativas de mudança de emprego ou de conseguir um, de casa nova, de relacionamento para os solteiros, de melhoria das relações para os compromissados, parar de beber, parar de fumar, curar-se de doenças, de malhar mais e deixar o corpo em forma, de emagrecer, economizar...
Enfim, todo ano é a mesma coisa... Uma extensa lista de promessas a serem cumpridas.  As intenções são boas, mas, ao desenrolar dos dias, caem no esquecimento. Os fatores são diversos, desde a preguiça para engendrar a transformação à falta de tempo para promover as mudanças prometidas.
Percebe-se, entretanto, que todas essas mudanças tem ligação com outra mais profunda e esquecida, não só no final do ano como em todos os dias de qualquer ano, a educação moral, que logrará a tão falada reforma íntima que, quando levada a efeito fará com que, não precisemos mais de promessas de fim de ano, pois ela será natural, sem dores, praticamente imperceptível.
O amai-vos e instrui-vos é conhecido de todos os que lidam no movimento espírita, porém, bem poucos entendem que o seu real significado está ligado ao entendimento de que para evoluir é necessário estar imbuído de estudos sobre os procedimentos essenciais e ter consciência sobre a necessidade de evolução.
A Doutrina Espírita tem entre as suas atribuições ajudar o homem a realizar a sua transformação moral, mas, essa atitude passa por compreensões maiores do que possamos supor. A primeira delas, é que carregamos certos vícios dos quais podemos não nos orgulhar, mas temos grandes dificuldades em extingui-los por estes já terem percorrido uma boa parte da vida alimentando nosso ego com mil e uma justificativas para mantê-los.
Sendo um dos temas mais debatidos no meio espírita, a reforma moral é também das mais complexas a ser colocada em exercício efetivo na vida até mesmo dos espíritas, que engordam as fileiras de promessas de final de ano, esquecendo-se que para alcançar transformações mais profundas, na vida material, é preciso consertar as estruturas que não se vê, as subjetivas, representadas pelo senso moral.
Mas, o que é moral, qual a necessidade dessa reforma?
A questão moral passa essencialmente pela ética que é o conjunto de valores, hábitos e costumes de uma cultura ou sociedade, interpretada pelos romanos como moral. A Ética é parte da Filosofia, seus estudos dizem respeito aos valores que o ser humano emprega em sua conduta para que possa alcançar a felicidade. A Ética está ligada à distinção entre o bem e o mal; entre o que é e o que não é proibido, entre o lícito e o ilícito.
Nesse sentido a educação moral vem criar condições para que saibamos como agir, de modo consciente e racional, para uma mudança comportamental quando despertamos para a necessidade de eliminar os pontos negativos que ainda reinam no espírito.
Reforma moral é um processo ininterrupto na busca pelo conhecimento de si mesmo e consequentemente de renovação de estruturas antigas, substituídas por novos paradigmas que levem o espírito a atingir o tão desejado progresso e equilíbrio.
Nesse esquadrinhamento do íntimo pela superação dos vícios e distúrbios a vivência evangélica é fator primordial que ajudará a eliminar os males do passado e a evitar outros no presente e no futuro.
Assim como as promessas de final de ano tem como propósito um estado de felicidade, este também é o objetivo da promoção da reforma íntima, que, entretanto, tem um alcance muito maior que meramente o âmbito material, apesar de atingir também este. A reforma moral tem seu raio de ação nas profundezas do espírito levando-o à consciencialização de que ele é o artífice de seu destino a partir de sua conduta.
Reformar-se moralmente envolve promessas de transformações que nunca fazemos que é mudar interiormente e que requer estarmos cientes das Leis Divinas, e por esta ser uma realidade ainda distante para muitos, sequer conseguimos cumprir simples promessas de fim de ano. Quando tivermos maturidade suficiente para entender que o alcance de uma vida material de realizações requer mudanças de atitudes mentais e espirituais, seremos mais felizes.
A reforma íntima tira os homens das cinzas, mostra a realidade da vida espiritual. É um processo lento, gradativo, esclarecedor, amplia as potencialidades do espírito para a vida imortal e neste momento é que a abertura para as verdades eternas se farão e não mais haverá promessas de fim de ano que fiquem sem cumprimento. Impregnados de bem estar perceberemos que a reforma íntima é quem cura os males do espírito legando ao corpo novas concepções para a vida na Terra.
                                  
                                   Feliz 2017!